quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Primo

Ontem eu liguei para minha mãe, depois da última vez que nos falamos eu não fui a melhor pessoa do mundo. Algo me dizia que eu tinha que ligar, liguei. Eu sabia, minha mãe estava a esconder os problemas familiares. Ontem acabou contando.

Tenho um primo, filho único da única irmã de minha mãe. Uns 3 anos mais velho que eu. Quando criança meus pais o adotaram como filho e meu irmão e eu o adotamos como irmão, um erro de meus pais, pois minha vó e minha tia nunca "aceitaram" muito bem isso e lá no fundo elas achavam que nós o roubamos, apesar delas permitirem e ele querer viver em nossa casa.

Não houve distinção, ele estudou na mesma escola que nós, tudo era irmanamente dividido. A única diferença, não entre nós, mas é que minha mãe não permitia que andassemos à toa na rua, da escola para casa, deveres e ajudar nos afazeres domésticos. Como estudavamos em períodos diferentes, ele cuidava do serviço pela manhã e eu pela tarde. E é claro que pela manhã tinha mais coisas a ser feita, o que não era muito. Varrer a casa, arrumar a cama, varrer a calçada. O grosso quem fazia era minha mãe.

A única coisa era isso, minha mãe controlava nós. Permitia que ele trabalhasse se quisesse, mesmo que não fosse para ganhar praticamente nada, mas ela deixava. Era apenas para "pegar" amor pelo trabalho.

Depois de anos cuidando da casa, minha mãe resolveu ir trabalhar fora. Eu ja tinha meus 11 anos, sabia me cuidar. Então ela não tinha mais controle sobre onde andavamos, o que faziamos. Eu segui as regras. Ele não. "Jõao vai com os outros" começou a andar com más companhias pra ele que não sabia dizer não. Cansei de vê-lo matando aula e fumando maconha. Avisei minha mãe, meu irmão também. Ela não acreditou, pensou que era fofoca.

Não era. Quando minha mãe foi até a escola e descobriu que ele havia reprovado por faltas. E tentou colocar freio nele, ele simplesmente voltou para casa de minha vó, morar com ela, alegando que nos faziamos ele de escravo. Minha vó passou a mão na cabeça dele, e disse que lá ele só ia estudar.

O que aconteceu? Ela não deixava ele trabalhar. Estudar ele nunca gostou, e ainda ela dava dinheiro para ele sair a noite, coisa que minha mãe não permitia. Ele caiu de vez nas drogas. Não somente a maconha.

Fugiu várias vezes de casa, para São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, em busca de drogas mais pesadas, que não chegam até cidades do interior.. e ficou até mais de 2 anos sem dar noticias. A última vez que ele foi encontrado é por que o destino o ajudou, depois de ir para em um hospital do RJ, uma enfermeira cuja mãe morava na mesma cidade nossa, se interessou pelo caso, ligou para mãe dela, que colocou um aviso na rádio procurando pela família dele. Bom, ele foi encontrado. Trouxeram ele de lá.

E há anos ele vivia, sossegado e sequelado. Incapacitado para o trabalho. Não dizia coisa com coisa. Tomava remédios controlados. Ia vivendo. Eis que: Alguns meses atras conseguiram fazer com que ele fosse aposentado por invalidez".

O que aconteceu?Dinheiro, liberdade e falta de cabeça.. novamente ele fugiu de casa. E novamente está trazendo sofrimento para minha mãe.

Hoje faz 2 anos que minha vó partiu, sonhando com o dia em que esse neto dela ia ser normal, mesmo todos dizendo que isso não seria mais possível. Ela colheu o que plantou. Achou que minha mãe o educava errado, achou que faria melhor, mas eu e meu irmão seguimos a vida normalmente.


** A exatamente 2 anos atras, eu escrevi minhas primeiras palavras em um blog, tudo começou quando minha vó partiu e eu sozinha, não sabia como colocar a dor que eu senti para fora, coloquei em formas de palavras, no meu extinto blog *Sonhando Acordada* que o weblogger expirou e levou consigo minhas lembranças **

Por isso o nome do Blog: Inspire-me... o sonho continua...

9 comentários:

Pelos caminhos da vida. disse...

Olá amiga!

Familia e seus problemas.
Eu ando querendo fazer uma postagem,referente a minha vida familiar,por enqto ainda me faltou coragem, mas enqto isso o que post,tudo é relacionado a mim.
tem post novo lá.

beijooo.

Carol disse...

Que triste...a droga é mesmo uma coisa terrível, destrói a pessoa e tudo ao seu redor...
=/

Youko Watanabe disse...

Lucí..
sem o que comentar sobre seu post de hoje.

=x

Sobre o livro, que bom que ets gostando.
Amei tbm e não conseguia parar de ler.
Espero encontrar meu Edward.
Beijos;

Youko Watanabe disse...

Ja sei pq seu link vai pro lugar errado.
Vc linkou meu podcast!
linka meu blog Lula..
bjo

=*

João Videira Santos disse...

O mundo real no calor das palavras doridas e dos sentimentos magoados...

Nanda Assis. disse...

desejo força a vc e sua mãe. e sei que sofre mais, em ver o sofrimento de sua mãe.
bjosss...

Pelos caminhos da vida. disse...

Olá.

Só passei aqui pra te falar, tem um post pra vc no meu blog.

Um otimo fim de semana.


beijooo.

Tassi disse...

Olá Lucí..

Nossa, esta história é profunda!!! Fiquei meia sem reação durante o processo de leitura deste escrito. Não sei, me voltei em lembranças avessas ao assunto, mas referente a família. Não sei explicar...

Mas enfim, estimo forças e vibrações positivas. Sempre! E não se esqueça jamais que tudo na vida tem seu tempo! E o tempo, é sempre sábio =]


Beijo grande
até mais querida ;*

Dora disse...

Lucí, Lucí... receio que esta sua história seja mais comum do que se pensa infelizmente. Traz muito sofrimento e sinceramente eu não sei dizer ao certo de quem é a culpa, ou a quem pertence a maior parcela de culpa. É sempre triste e isso eu sei. As pessoas são criadas do mesmo jeito, com as mesmas coisas... as mesmas dificuldades e facilidades também... Uns seguem um caminho melhor que outros. Eu não entendo as razões disso, mas cada um vê a vida de formas diferentes... talvez isso seja o caminho para essa resposta...
Já presenciei uma história assim. A mesma seqüência e as mesmas conseqüências também. Incrível.
Sobre sua avó... sonhar é sempre bom. Talvez o melhor que se tenha a fazer nessa vida. Ela estava certa em sonhar. Sem sonhos não conseguimos concretizar nada. Quem sabe o sonho dela ainda tenha jeito de se realizar, né?! A gente não sabe o que nos trará o futuro...
Cheiro bem grande e uma boa semana, florzinha.