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sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Sobre...

A verdade é uma só, não tenho assunto, mas tenho a necessidade de escrever para me organizar internamente. Estou a voltas e tudo que acerca tem relação com o meu braço e nesses dias mais frios é verdaďe que fratura dói bem mais.

Nesse mesmo tema, ja faz me lembrar que isso aconteceu dia 20 e que felizmente o tempo esta voando e que eu arrumei umas ocupações que ninguém precisa saber, mas que estão me afastando do tédio,  digamos que conhecer a cultura de outro país de outras formas.

E...

Não resolve meus pensamentos se voltam para aquela semana fatidica, me veio a lembrança do dia anterior, que eu estava almoçando quase duas da tarde, como sempre, que havia chegado do trabalho e tinha muitas coisas para fazer ainda, começar a organizar as coisas para a viagem que não aconteceu, e eu só queria uma coisa: um tempinho meu, para ler. Estava lendo o último livro da série  Os sobreviventes de Mary Balogh e simplesmente estava apaixonada e envolvida com o que lia, mas não tinha tempo.

E eu lia enquanto comia e refletia sobre isso, que eu nunca tinha tempo, que só queria ler um livro e não pensar e me preocupar com mais nada e ninguém e o universo ouviu meus pensamentos e algum anjo mirou errado, me deu o tempo que eu tanto queria com uma leve consequência,  mas se não fosse assim de que outra forma seria???

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Gatilhos, de onde vem e para onde vão..

Gostaria de compreender o mecanismo de gatilhos de algumas memórias que tenho, que nos momentos mais "nada haver" elas pairam nos meus pensamentos e ficam ali rodopiando como folhas em um espiral de vento, todas rindo de mim sussurrando e soprando carinhosas lembranças.

Estava almoçando e pá, veio a lembrança de um agasalho do meu irmão,  era marrom com golas e punhos pretos e na frente a estampa de três dados coloridos empilhados. A lembrança do meu irmão vestindo ele para ir para a escola, a lembrança do agasalho guardado no guarda roupas, quando ja nao servia mais a ele. Com uns 13 anos eu peguei ele e me chamei de dona, porém ele já não parecia mais tão bonito como eu o via.

Eu doei ele e quem ganhou fez tão bom uso, que de todas as lembranças que vieram hoje, essa foi a que mais me sensibilizou.

Nessa época, eu tive um colega, amigo, ele era muito pobre, mas muito mesmo, a ponto de ir de chinelos de dedo no inverno, e quem é do Rio Grande do Sul, ainda mais da cidade que nasci, tem uma leve noção do rigor do frio. Eu lembro de olhar para os pes dele, cruzados embaixo da carteira, das roupas pequenas e curtas, ele parecia estar com muito frio.

Ele era um dos mais inteligentes e esforçados, foi o único ano que estudamos juntos, ele era miúdo, um dos menores da sala, sempre muito soŕridente. Entre amigos nos reunimos e cada um doou uma coisa: tenis, meias, touca e eu o agasalho.

Colocamos em uma sacola, em baixo da carteira junto com os materiais e eu escrevi o bilhete, não lembro mais o que escrevi, mas como eu era a mais intima, escrevi com carinho, para nao constrangelo, como se eu tivesse dando todas as peças. Lembro dele lendo o papel, olhando para os lados, o sorriso e um obrigado dito em voz sussurrada.

No outro e nos demais dias, eu vi ele com aquele agasalho e novamente todos os demais dias, criando novas e novas lembranças.  Ainda estou pensando aqui o que me levou a essa enchurrada de pensamentos, talvez ontem por ter conversado com meu irmão e ele mesmo envelhecendo eu ainda o vejo como aquele carinha de moletom saindo para estudar.

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Agora ficou esclarecido, penso eu..

Em um passado muito remoto, desejei ser freira. Não pela vocação ao clero (que diga-se de passagem , descobri mais tarde não ter nenhuma), mas quando se nasce no interior, nos anos 80, o meu único passeio além da casa dos poucos familiares,  era a missa de domingo, ainda mais quando o irmão mais velho esta a fazer a catequese, era obrigatório. 

Tudo relacionado a igreja me fascinava, os eventos, musica a arte. Minha mãe, logo tratou de manipular meu interesse, "freiras não podem casar". E o meu sonho foi deixado de lado, por outra paixão ainda maior: casamentos, que mais tarde descobri que tinha muito mais a ver com meu amor pelo design de roupa do que a união de homem e mulher.

Vim de uma família católica, mãe praticante dentro de uma racionalidade aceitável para a geração dela e de um pai, nada católico, que não se colocava a favor nem contra. Simplesmente chegou a idade da catequese e la fui eu fazer, por que era assim, fazer por que tinha que ir, porque todos faziam. Eu já tinha 10, 11 anos e não queria ser mais freira e tão pouco sonhava me casar, mas fui obrigada a seguir por algum tempo, sem deixar de questionar, mesmo assim "ia por que tem que ir".

Onde eu quero chegar com esse relato. Faz tempo que percebi que Lígia estava incomodada pelo fato de alguns amigos fazerem catequese, acredito que bem mais por se sentir excluída do que pelo interesse religioso. Por tempos ouvi comentários dela sobre, me mantive em silêncio,  a questão que acredito que começaram a pressiona-la "porque você  não faz?" e ela por não ter ou  não saber uma resposta começou a se sentir incomoďada, mas em nenhum momento chegou a me questionar.

Ontem ďurante a janta, novamente apos comentários sobre a catequese da melhor amiga, resolvi iniciar uma conversa mais esclarecedora, que não fiz antes por que eu achei que ela entendia os motivos. Começamos contando a ela sobre a nossa experiência de catequese, o pai até coroinha na igreja foi, porém enfatizamos que não tivemos escolha, iamos e frequentavamos por que todos faziam e não por que gostavamos ou entendiamos, eramos crianças.

Ela olhava e ouvia bem interessada, expliquei que ela não fazia catequese porque primeiŕo, nós os pais não somos adeptos a nenhuma religião e segundo, ela é criança e não tem entendimento próprio sobre fé. 

E cheguei ao ponto que acredito que era o que estava a incomodando, os questionamentos dos amigos. "E quando os amigos te perguntarem o por que você não faz, diga a eles que seus pais optaram por te dar opção, de você ter direito a escolher a sua própria religião,  quando você tiver idade e maturidade para entender e seguir uma religião por fé e por que se identifica com ela, não por que teus pais estão te obrigando. A sua escolha sera respeitada por nós independentemente de qual seja.".

Senti nos olhos dela a satisfação com a ŕesposta, de se sentir amparada, mesmo o pai no fim dando uma derrapada. "Eu só acho que não deveria ir para a umb.....". Já nem deixei ele terminar e cortei o caminho.. "inclusive a umbanda, se você escolher, pois será uma escolha sua e nós vamos respeitar.

Sugeri a ela que pesquise sobre religiões para conhecer as opções e ver que existe bem mais no mundo do que a católica. 

Quando achei que o assunto estava encerrado e não seria minha filha se tivesse encerrado..

"Mas mãe por que você me obriga a estudar?"  La fui com outro discurso agora não mais sobre opção, mas sobre oportunidade. 

"Eu não te obrigo, eu te incentivo. Quando você vai a escola, você tem a oportunidade de aprender. Quando te coloquei na aula de música, você tem a oportunidade de aprender, o mesmo com o idiomas. A dança..Os livros, eu não te cobro, não te obrigo, te dou a oportunidade e te incentivo."

"O que você aprende na escola você irá levar pra vida. O que você aprende na igreja e nas religiões, você não depende a frequentar lugar nenhum para ter princípios éticos, você deve saber o que é certo, errado, sem precisar de religião para isso, é a base do caráter que te cobro".

Foi outra longa conversa sobre valores, mas eu sei o quanto foi importante para ela, pois ela parou para ouvir, com atenção e jamais deixou de questionar, sinal que estamos no caminho certo, não é porque somos pais que somos donos da verdade e ela tem o direito inclusive de nos questionar.